EM BUSCA DO AMOR

 

O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando,
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor, que hás-de encontrar.”

Fui pela estrada a rir e a cantar,
As contas de meu sonho desfiando…
E noite e dia, à chuva e ao luar,
Fui sempre caminhando e perguntando…

Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?”
E o velho estremeceu… olhou… e riu…

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos p’ra trás desanimados…
E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!…”

Florbela Espanca

in «Livro de Mágoas», 1919

Published in: on Setembro 14, 2007 at 5:55 am  Comments (2)  

Até amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.
Eugénio de Andrade

Published in: on Julho 21, 2007 at 2:23 am  Deixe um Comentário  

Estoy triste, y mis ojos no lloran

Estoy triste, y mis ojos no lloran
y no quiero los besos de nadie;
mi mirada serena se pierde
en el fondo callado del parque.

¿Para qué he de soñar en amores
si está oscura y lluviosa la tarde
y no vienen suspiros ni aromas
en las rondas tranquilas del aire?

Han sonado las horas dormidas;
está solo el inmenso paisaje;
ya se han ido los lentos rebaños;
flota el humo en los pobres hogares.

Al cerrar mi ventana a la sombra,
una estrena brilló en los cristales;
estoy triste, mis ojos no lloran,
¡ya no quiero los besos de nadie!

Soñaré con mi infancia: es la hora
de los niños dormidos; mi madre
me mecía en su tibio regazo,
al amor de sus ojos radiantes;

y al vibrar la amorosa campana
de la ermita perdida en el valle,
se entreabrían mis ojos rendidos
al misterio sin luz de la tarde…

Es la esquila; ha sonado. La esquila
ha sonado en la paz de los aires;
sus cadencias dan llanto a estos ojos
que no quieren los besos de nadie.

¡Que mis lágrimas corran! Ya hay flores,
ya hay fragancias y cantos; si alguien
ha soñado en mis besos, que venga
de su plácido ensueño a besarme.

Y mis lágrimas corren… No vienen…
¿Quién irá por el triste paisaje?
Sólo suena en el largo silencio
la campana que tocan los ángeles.

 

 

Juan Ramon Jimenez

Published in: on Abril 22, 2007 at 3:28 pm  Comments (2)  

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

Published in: on Abril 15, 2007 at 11:30 am  Comments (1)  

Pedagogia

Brinca enquanto souberes!
Tudo o que é bom e belo
Se desaprende…
A vida compra e vende
A perdição,
Alheado e feliz,
Brinca no mundo da imaginação,
Que nenhum outro mundo contradiz!
 

Brinca instintivamente
Como um bicho!
Fura os olhos do tempo,
E à volta do seu pasmo alvar
De cabra-cega tonta,
A saltar e a correr,
Desafronta
O adulto que hás-de ser!

Miguel Torga

Published in: on Março 14, 2007 at 6:15 pm  Comments (2)  

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração

Fernando Pessoa

Published in: on Fevereiro 18, 2007 at 5:35 pm  Comments (3)  

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres

Que pelo teu amor seja a melhor,

A mais triste de todas as mulheres.
 

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres

É sempre um sonho bom! Seja o que for,

Bendito sejas tu por mo dizeres!
 

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho…
como se os dois nascêssemos irmãos,

Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…
 

Beija-mas bem!…Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,

Os beijos que sonhei prà minha boca!…

 

 

Florbela Espanca

Published in: on Janeiro 17, 2007 at 6:05 am  Comments (2)  

Viagem

Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar…
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos).
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação
Numa errante e alada sepultura…
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura
O que importa é partir, não é chegar.

Miguel Torga  

Published in: on Dezembro 29, 2006 at 2:49 am  Comments (1)  

Natal

Há sinos e guizos tinindo, cantando em suas vozes de cristal.
Porque é Natal!
Porque é Natal, há árvores de cor
e luz na casa familial.
E antagonismo sob disfarce
de um riso na face.

Porque é Natal, há presentes camuflados em embrulhos resplandecentes
que se vão oferecer
contando pelos que se dão
os que se hão de receber.
E o cartão de “Boas Festas” mais que convencional
Porque é Natal.

Porque é Natal há um Papai Noel de salário mínimo contratado para a ocasião
que finge que é
que finge que dá
sob a barba de algodão.

Porque é Natal, há estrelas luminosas
guiando com luz fatal
à casa comercial

Porque é Natal, acumulam-se calorias
na ceia convencional
e o fígado levanta protestos
de difícil digestão
Dívidas se acumulam
pela alta da inflação.

De resto já nada importa
nem tem significações
Ninguém tem culpa de nada…
Só o peru é culpado, afinal.
Mate-se o peru
porque é Natal.

 Autora: Magdalena Léa  

Published in: on Dezembro 7, 2006 at 3:11 am  Comments (1)  

Timidez

 

 O bicho-de-conta
Faz de conta, faz
Que é cabeça tonta

Mas lá bem no fundo
Não é mau rapaz.

Se a gente lhe toca,
Logo se disfarça:
Veste-se de bola.

Por mais que se faça
Não se desenrola.

Lá dentro escondendo
Patinhas e rosto
É todo um segredo:

Se eu fosse menino
Comigo brincava
Sem medo sem medo.

Maria Alberta Menéres

Published in: on Novembro 28, 2006 at 7:53 pm  Comments (1)